O Palácio Municipal de Valenças foi construído em meados da segunda metade do século XIX e insere-se na eclética corrente romântica que proliferou na serra de Sintra, e em seu redor, ao longo de toda a centúria de oitocentos. O Palácio de Valenças ou Palácio do Duche como inicialmente foi chamado, foi construído no local onde até cerca de 1850 funcionou o matadouro municipal de Sintra.

O rico comerciante lisboeta, António Ferreira dos Anjos, foi o responsável pela construção de um novo palácio, riscado por Giuseppe Cinatti, que viria a marcar o magnífico cenário da vila de Sintra.

Para riscar o projeto escolheu o italiano Giuseppe Cinatti – importante arquiteto/cenógrafo que já tinha executado vários projetos de arquitetura para a classe mais abastada do reino para além de cenários de excecional qualidade estética para os principais teatros de Lisboa e Porto. A propósito do Palácio de Valenças, escreveu o historiador José Augusto França: «nítidas influências italianas, algo venezianas até, com as suas “loggias” quinhentistas e certos pormenores discretamente góticos». Claramente o espírito romântico da época. O revivalismo de correntes estéticas que marcaram a história da arte europeia, como o gótico, é recorrente neste período. Os próprios parques que rodeiam as propriedades resultam em fantásticos jardins paradisíacos pontuados de recantos de lazer, obras de arte, lagos, cascatas e muitas vezes edifícios em ruínas que completavam um ambiente propício a sensações nostálgicas e evocativas da importante e anciana cultura europeia.

O palácio e o respetivo parque mudaram de nome graças ao seu segundo proprietário Luís Leite Pereira Jardim, 1º conde de Valenças. Casado com D. Guilhermina Rosa Matos Anjos, herdeira de António Ferreira dos Anjos, herdou a propriedade ainda no século XIX. É possível que não tenha havido alterações relevantes no palácio e no parque durante o tempo de vida do conde. Após a sua morte em 1910, a propriedade foi herdada por seu filho, 2.º conde de Valenças, Ricardo Anjos Jardim. Foi desta forma que o nome Valenças ficou sempre ligado ao Palácio.

A intervenção mais significativa terá acontecido em 1939 quando o edifício foi adaptado a biblioteca, museu e arquivo histórico. Passou, portanto, a ser um edifício público e como tal foi necessário redimensioná-lo a uma nova realidade. O parque foi aberto ao público no ano seguinte ao da sua aquisição com a denominação de Parque Doutor Oliveira Salazar, evocando assim a figura do ditador que procurava consolidar o seu poder. Este topónimo viria a dar lugar ao de Parque 25 de Abril na sequência da revolução dos cravos de 1974.

O edifício ergue-se majestoso e destacado numa zona de acentuado declive no centro histórico de Sintra. Apresenta uma planta longitudinal, composta por uma volumetria paralelepipédica, a que se adossa um corpo retangular a Este e uma outra estrutura em forma de torre a Norte. As coberturas são diferenciadas e apresentam telhados de quatro águas. Do lado norte o edifício principal apresenta três registos. A Este apresenta dois e em ambos os casos estão assinalados por um friso de cantaria simples.

Os vários volumes são delimitados por cunhais de cantaria e coroados por pináculos cónicos em forma de espiral. As janelas apresentam-se simétricas entre si. O segundo piso apresenta, no ângulo da fachada Sudeste, uma loggia com dois arcos quebrados a Este e um a Sul. Teto decorado a estuque policromado com motivos geometrizantes e balaustrada de cantaria. Esta estrutura sobrepõe-se à entrada do palácio, que apresenta uma abertura simétrica à do primeiro registo, embora dos dois arcos virados a Este apenas um se encontre aberto.

Em 1959 a fachada principal do palácio recebeu um gigantesco painel azulejar com as armas do município da autoria do ceramista Carlos Vizeu que, em 2002, foi substituído por uma réplica, do mesmo artista, devido ao mau estado de conservação em que se encontrava na altura. No interior um amplo vestíbulo, de pavimento em pedra mármore e cobertura estucada. Uma lareira de formas geométricas e fitomórficas na parede. O acesso ao piso superior é feito por uma escadaria em mármore. Algumas salas apresentam vários tetos decorados com estuque policromado e motivos geometrizantes de grande qualidade plástica. Várias aplicações de madeira, em diferentes espaços, ostentam objetivos funcionais ou meramente decorativos.

A sala que atualmente é utilizada para reunir a assembleia municipal, a chamada Sala da Nau, apresenta uma cobertura curva forrada a madeira e na parede testeira uma pintura mural com elementos vegetalistas. Em 2003 a biblioteca municipal passou para a Casa Mantero e, mais tarde, o Arquivo Histórico transitou para as instalações do Arquivo Intermédio, tornando, assim, num edifício de representação institucional.

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