A herança cultural do concelho de Sintra é de tal forma importante que se compreende de imediato a sua classificação, pela UNESCO, como Património Mundial. Dos vestígios arqueológicos que se perdem na cronologia da noite dos tempos até ao inigualável património contemporâneo, Sintra, é, ainda hoje, um dos mais belos cenários resultantes da harmoniosa articulação entre Património e Natureza. A finis terrae do mundo antigo, como lhe chamaram os romanos, acolheu, ao longo dos séculos, milhares de criaturas vindas de outras partes do mundo conhecido de então, sobretudo do Oriente e de África.

Uns fugidos à Justiça - por vezes dura e implacável - outros em busca de melhores condições de vida, o certo é que os mais variados tipos de pessoas viajaram e estabeleceram-se nesta zona do continente europeu. Sintra e a sua serra, foram o destino final para muitos povos conquistadores e/ou simples viajantes que, pelas características climáticas, naturais, estéticas, ou porque simplesmente não tiveram outra alternativa aqui ficaram e deixaram, inevitavelmente, o seu testemunho para memória futura.

 Os vestígios encontrados nas escavações arqueológicas, assim como o património edificado, revelam uma diversidade de ocupação verdadeiramente significativa. Desde a pré-história, passando por romanos, visigodos, mouros e judeus até que a dinastia dos Borgonha, na figura de D. Afonso Henriques, conquistou e definiu, na quase totalidade, o território ao qual hoje denominamos Portugal. No seu conjunto, tal é a riqueza patrimonial que nos legaram. Muitos desses vestígios, que hoje denominamos monumentos, tornaram-se verdadeiros ex libris da vila de Sintra. Um dos mais importantes é, sem dúvida, o “Castelo dos Mouros” que do alto da serra, denominada pelos romanos de “Monte da Lua”, vigia atentamente a serena vila de Sintra e toda a vasta planície saloia envolvente, que se estende até Mafra por um lado, e, até ao mar oceano, por outro.

As origens da fortificação, um dos únicos exemplares de arquitetura militar em Sintra, não estão ainda completamente esclarecidas. São várias as teorias aventadas pelos investigadores. Uns defendem que poderá ter tido origem no séc. VII e, consequentemente, no período de domínio dos visigodos. O principal facto que sustenta esta teoria é o aparelho utilizado na edificação das muralhas. Contudo, a maioria dos investigadores atribuem a fundação da fortaleza ao século VIII ou IX e neste caso ao período muçulmano.

O domínio árabe da península estava, contudo, ameaçado e principalmente a partir do final do século XI. Logo em 1093, D. Afonso VI de Leão tomou Sintra aos Mouros. Este foi um dos rápidos assaltos, e de pouca duração, uma vez que a ocupação durou apenas dois anos. A seguir, em 1109, Sigurdo, príncipe norueguês, tomou o castelo e mandou estrangular todos os muçulmanos que não quiseram receber o batismo. Porém este ataque ainda não era o definitivo, nem o foi o que empreendeu logo de seguida o conde D. Henrique. Após a conquista de Lisboa, em 1147, a vila de Sintra e o seu castelo são entregues voluntariamente a D. Afonso Henriques. A este propósito escreveu o cruzado Osberno: “os de Sintra entregaram-se ao rei, depois de rendida a guarnição do seu castelo”. Mais tarde, em 1154, D. Afonso Henriques concedeu foral a Sintra e entregou o castelo a trinta povoadores, que no fundo guarneciam e protegiam o castelo e toda a sua envolvente.

Edificado estrategicamente num dos picos mais altos da serra e sobre um afloramento de grandes penedos graníticos, que a norte funciona como uma defesa natural intransponível, o castelo ergue-se pleno de nobreza e excelência. Estruturalmente, a fortificação apresenta dupla cintura de muralhas (a exterior encontra-se hoje parcialmente destruída). De planta irregular, cobre cerca de 12.000 m2. As duas entradas, a partir da muralha exterior, são feitas por portas em rodízio. O castelo, propriamente dito, tem apenas uma entrada e o seu pano de muralha é reforçado por cubelos quadrangulares e um deles circular, coroados por merlões de forma piramidal. A entrada é feita por meio de dois cubelos avançados e por adarve que encima o pano de muralha. No interior observamos ruínas do que foram estruturas para armazenamento de géneros cerealíferos, estábulos e uma cisterna de planta retangular, com 18 metros de comprimento por 6 de largura. No extremo norte rasga-se, dissimulada no pano de muralha, por entre silvas e outra vegetação a famosa Porta da Traição

Segundo os Priores António de Sousa Seixas e Francisco Antunes Monteiro, nas respetivas Memórias Paroquiais de 6 e de 18 de Abril de 1758, das Paróquias de São Pedro de Penaferrim e de Santa Maria do Arrabalde, o castelo apresentava o aspeto arruinado da sua estrutura de muralhas e grutas, pontuada por cinco torres, de forte argamassa pela campanha de obras muçulmana, destacando-se: uma torre com uma tulha de 5,5 palmos de diâmetro contendo uma estrada subterrânea conduzindo a Rio de Mouro; uma torre de menagem, outrora abobadada suspensa no ar e então arruinada; bem como a Torre Real; além da grande cisterna coberta subterrânea abobadada (63 palmos de comprimento, 26 palmos de largura) com três arcos e parcialmente arruinada por duas fendas, com nascente de águas saborosas.

Contudo, é chegado o século XIX e, consequentemente, a estética romântica a sorte do “Castelo dos Mouros” seria alterada. Mais uma vez o espírito sensível, esclarecido e iluminado do rei D. Fernando II teve um papel de importância capital na recuperação da fortaleza. Os recantos arquitetónicos em ruínas cobertos pela vegetação autóctone eram muito apreciados neste período. Contudo, D. Fernando II, estava determinado a não deixar desaparecer o pouco que ainda existia da fortaleza e, assim, em meados do século, mandou avançar o Barão von Eschewege com o restauro e consolidação dos velhos panos de muralha e das suas torres devolvendo a silhueta do “Castelo dos Mouros” à luxuosa paisagem sintrense. No interior das muralhas, assim como na sua envolvente exterior, o rei artista, mandou arborizar toda a área, o que hoje, passados cerca de cento e cinquenta anos, nos deleita e corta a respiração ao observar a paleta de cores oferecida pelas folhas das caducifólias, com os verdes, os castanhos, os laranjas ou os amarelos.

Desde o século XIX não houve alterações significativas à estrutura da fortaleza. Ocasionalmente, são levados a efeito trabalhos de limpeza e escavações arqueológicas pela Sociedade Parques de Sintra Monte da Lua, SA, entidade gestora daquele espaço.

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