Sintra, Património Histórico-Natural da Humanidade: A Especificidade da «PAISAGEM CULTURAL», ou  as razões que assistiram a uma candidatura 

O conjunto monumental de Sintra (Vila e Serra) é o sítio de deslumbramento por excelência do território português, como tal desde sempre reconhecido.

Efectivamente, Sintra integra valores de conjunto com uma tal qualidade emblemática que, mesmo apesar dos malefícios sofridos por força do tempo e da incúria dos homens, resgata o que podemos designar por soberbas especificidades patrimoniais de uma Paisagem Cultural única: daí que o processo de classificação a Património Mundial/ UNESCO se tivesse imposto como uma necessidade.

Para nós, autores da proposta inicial de classificação, em Junho de 1981, tornou-se sempre muito claro que não era o conjunto de monumentos isolados que se impunha classificar, com a sua envolvência – embora, bem atendido, a numerosa série de edifícios histórico-artísticos e de sítios de valor arqueológico venha reforçar substancialmente a referida especificidade patrimonial de Sintra. O que era imperioso aglutinar como objecto de classificação era, sim, essa espécie de encantatória comunhão entre o natural e o artístico, que a Serra roqueira forma com as suas unidades de ocupação multiseculares e com a sua aura de neblinas eternas, constante motivação romântica de poetas e pintores.

Reconhecida a qualidade, por certo heterogénea, dos muitos imóveis históricos que se perfilam no tecido da Vila e da Serra (muitos deles, aliás, já individualmente classificados como “monumentos nacionais” ou “imóveis de interesse público”), a especificidade patrimonial de Sintra afirma-se sobretudo na sua paisagem, inundada de quintas, parques, jardins, fontes e espaços desafogados – e é precisamente esse valor intrínseco, definido pela poetisa renascentista Luísa Sigêa como «espelho de um vale ameno por entre rochedos que se enlevam até ao céu e se recurva em grandiosos outeiros, por entre os quais se sente o murmurar das águas», que tornou coerente e unitária a proposta de classificação ora apresentada à UNESCO.

O acervo de unidades construídas é impressivo, desenha-se nas fímbrias da paisagem e confunde-se com as reentrâncias da penedia, com as curvas majestosas da mancha florestal: por isso um dos exemplos citáveis entre tantos, o Convento quinhentista de Santa Cruz dos Capuchos, perdido na Serra, produz um efeito tão tangível de singeleza e de recolhimento… Os exemplos de maior grandiloquência arquitectónica rareiam, como se não fosse necessária a pompa, como se ela já fizesse parte tangível do elemento natural que tudo envolve enevoa… Assim, a qualidade artística do Palácio da Vila, castelo de remota origem árabe, paço de reis portugueses desde a Reconquista cristã, constitui exemplo à parte, que o seu estatuto realengo justifica – mas não deixa, na irregularidade da sua massa confusamente distribuída pelo Chão de Oliva, de reflectir uma respeitosa servitude face à Serra imensa que invadiu. A mesma impressão de comunhão com a paisagem se sente ao olharmos a belíssima igreja gótica de Santa Maria, e necessariamente com outra dimensão ao percorrermos o romântico Castelo da Pena, do rei-mecenas D. Fernando II e do seu arquitecto, Barão de Eschewege.

A proposta de classificação, por nós apresentada em Junho de 1988 e desde logo aprovada em reunião da Câmara Municipal, primeiro, e da Assembleia Municipal, depois foi formulada com base no entendimento das referidas “especificidades culturais e ambientais” e assente num amplo levantamento de campo.

Na realidade, às formas artísticas e às de humana funcionalidade acresce sempre a qualidade botânica, paisagística e florestal de uma área que, ainda por demais, se desenha em considerável dimensionamento e que, apesar de tudo, vai resistindo às pressões do tempo, aos sinistros naturais ou provocados, e às malfeitorias egoístas dos homens. O acervo de edifícios de valor histórico é exemplar e, repetimos, se não justifica de per si a classificação avançada, redefine e pontualiza a referida expressão global da especificidade patrimonial da paisagem.

De facto, subsistem numerosos testemunhos da antiguidade pré-histórica, proto-histórica e romana, bem recenseados por Cardim Ribeiro, e dezenas de edifícios sacros e civis que se podem enumerar com profusão – igrejas e mosteiros, palácios, casas de valor patrimonial, quintas serranas, típicos conjuntos saloios. São conhecidos os testemunhos sobre essa serra «permanentemente mergulhada numa bruma que não se dissipa» onde, segundo o geógrafo árabe Al-Bacr, já no século XI d. C., «crescem violetas selvagens» e fruta abundante. Bem assim recordamos as elogiosas trovas do rei-poeta D. Dinis, e a poesia lamentosa de Bernardim Ribeiro, e as referências quinhentistas ao «jardim do paraíso terreal» de que fala Gil Vicente, ou a evocação a «hum dos lugares da Europa mais frescos, e alegres» sob os «bons ares da Serra chamada pelos antigos Promontório da Lua» no dizer do historiador Damião de Góis, ou ainda as palavras de êxtase de Luísa Sigêa, de João de Barros e de Luís Pereira Brandão, entre tantos outros... 1

 Por isso o espírito humanista e neoplatónico do Renascimento buscou Sintra para refúgio bucólico e prazenteiro devanear de espíritos: o Paço Real renova-se com a presença delongada da corte e tradicionais saraus de poesia e récita; D. João de Castro aqui erigiu a Quinta da Penha Verde, que ornou com peças de arqueologia hindu numa comprometida cristianização do antigo; os Ribafrias levantam na Vila Velha, e no lugar de Lourel, casas apalaçadas com lóggias “ao romano”, portais e fontes salpicados de putti e grottesche, e balcões balaustrados, de fino gosto italianizante; o Infante D. Luís emprega o seu amigo e arquitecto romanista Francisco de Holanda na remodelação da ermida rural de São Mamede de Janas, sob vestígios de estruturas anciíssimas; D. João III encarrega o escultor gaulês Nicolau de Chanterenne de esculpir o retábulo do Mosteiro da Pena em 1529-32; por isso o perfil de Sintra se desenha, iluminado por bom artista, em desconhecida vinheta da cópia da Crónica de D. João I de Fernão Lopes, manuscrito de cerca de 1520 da Biblioteca Nacional de Madrid, talvez do iluminador régio Álvaro Pires.

Particularmente arrebatadas são as descrições de franco e desmesurado elogio pelos românticos oitocentistas, portugueses e estrangeiros, a esse «silêncio de bosques» de que fala Almeida Garrett, a esse «paraíso mudo» segundo laura Junot, ao «mais abençoado lugar de todo o globo habitável» para Robert Southey, ou ainda ao célebre «glorious Eden» de Lord Byron, sem esquecer a afeição de um Lord Southey pela paisagem serrana, mau grado a sua arrogante antipatia pela população (comum também a um William Beckford, por exemplo):

«Cintra is too good a place for the Portuguese; i tis only fit for us Goths, for Germans or English»…

É indiscutível o valor globalizante do património natural da grande Serra, que com os seus castelos e mosteiros alcantilados, com os seus «bosques sem tempo», os seus lagos transparentes, as suas fontes murmurosas, se constitui em ambiente de sonho e mesmo, palco imaginoso e bucólico de faunos dançantes e de ninfas garbosas, segundo um dos autores da Renascença que lhe referiram.

Terra de palacetes e quintas erigidos por uma aristocracia conformada, gáudio de sonhos românticos e deleite de viajantes célebres, a recriação do sonho afirma as potencialidades multiformes da paisagem. É nesta dimensão, precisamente, que os recheios artísticos das suas igrejas e capelas urbanas e saloias – sejam ainda gótico-manuelinos, maneiristas ou já barrocos, animosos de imaginária sacra, de azulejos polícromos e de talha doirada – ganham pleno sentido, a par da novidade refrescante dos núcleos de arquitectura rural, expressão personalizada da criatividade popular.

Em suma, é esta comunhão invejável, rara, absolutamente sublime, entre um meio ambiente de paisagem manchada de verdes e fragas, e a expressiva realidade de agregado urbano (Vila Velha), num conjunto bem caracterizado em facetas multiformes por quase nove séculos de história humana, que hoje se impôs classificar, a fim de agora melhor poder ser preservada e revivificada.

Se existe sítio em Portugal que, pelas potencialidades do seu espaço natural e pela riqueza e diversidade do seu acervo de monumentos, tenha justificado sem quaisquer reservas a classificação de Património Mundial/UNESCO, esse é seguramente o caso da Vila e da Serra de Sintra. Mas tornou-se necessário saber atentar no âmago desta categoria, antes definida, de especificidade patrimonial assente na re-dignificação da unidade paisagística: só assim a classificação Património Mundial/UNESCO pode ser viabilizada, tornando os numerosos valores constitutivos que se inventariaram com minudência, e o espaço abrangente da Serra de Sintra – lugar ímpar como paisagem cultural – que nos levou em Junho de 1988, na nossa qualidade, à data, de técnico superior da Divisão de Cultura dessa autarquia, a avançarmos com a proposta de classificação a Património mundial. Após esforçado levantamento das potencialidades do terreno, da sensibilização das forças vivas do Concelho, a que se seguiu a consubstanciação própria da candidatura (de que o livro Sintra da Colecção «Cidades e Vilas de Portugal» da ed. Presença, em 1989, constituiu então uma espécie de “manifesto”), verificámos que o processo estiolou então, por falhas processuais e, sobretudo, por erro de análise na filosofia mais adequada para conduzir a candidatura a bom termo.

Como escreve José Saramago,

«… todos os caminhos vão dar a Sintra. O viajante já escolheu o seu (…), espreitará as casas que descem a arriba em cascata, depois o areal batido pelas ondas do largo, mas confessa ter olhado tudo isto um pouco desatento, como se sentisse a presença da serra atrás de si e lhe ouvisse perguntar por cima do ombro: “então que demora é essa?”. Pergunta igual há-de ter feito o outro paraíso quando o Criador andva entretido a juntar barro para fazer Adão». 2 

Efectivamente, o paraíso de Sintra descobre-se aqui, nesta dimensão da Paisagem Cultural: tudo faz sentido, tudo adquire dimensão inebriante, se for olhado e revisto à luz do grande contexto de fascínio em que os edifícios, os monumentos, as fontes, as árvores, todas as coisas simples se colocam no nosso caminho…

Assim, e em respeito pelos critérios estabelecidos na Convenção Relativa à Protecção do Património Mundial Cultural e natural, podemos confiar numa classificação de Sintra desenhável num curto prazo de tempo e justificável pelo acerto e seriedade das propostas apresentadas.

 

1 Cfr. Vítor Serrão, Sintra, Ed. Presença, Lisboa, 1989

2 José Saramago, Viagem a Portugal, Ed. Caminho, Lisboa, 1988

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