A paisagem de Sintra: Natura, Cultura e Literatura

Na sua unidade variada, a paisagem de Sintra desdobra-se a partir do centro histórico com raízes medievais, abrange o tecido urbano oitocentista onde se concentram funções terciárias e, estendendo-se pela serra e planície envolvente, integra uma zona ampla, homogeneizada por vínculos culturais multisseculares.

Por conseguinte, este espaço policêntrico exige uma leitura atenta aos diálogos que, por vezes inesperadamente, se estabelecem entre a orla litoral de praias e falésias ou a exuberância vegetal de parques, jardins, várzeas e quintas e, por outro lado, o sistema arquitectónico formado por igrejas, conventos, castelos, palácios, e residências de interesse histórico invulgar. Em sentido lato, entender e interpretar Sintra implica reconhecer que, subjacente à diferenciação espacial dos lugares, se reitera uma estrutura mítica unitária e profunda por onde se caracteriza a excepcionalidade da sua paisagem cultura romântica.

Comecemos por notar que Sintra nunca se limitou a ser lugar de recolhimento, propício à meditação e à vida contemplativa que, aliadas à mortificação ascética, são componentes da espiritualidade monástica. Dado que se evidenciou a importância da sua Proximidade de Lisboa, reflectida no seu posicionamento estratégico e no facto de constituir lugar de aprazível vilegiatura e veraneio, Sintra cedo se transformou em localidade preferida para permanência mais ou menos prolongada dos reis, da corte, da aristocracia e, com o volver dos séculos, da burguesia endinheirada. Além disso, Sintra é uma metáfora de idílios rústicos, ponto de reencontro do homem citadino com a Natureza ainda impoluta do ambiente rural e, por excelência, a via de regresso ao Éden, por sinal reconstruído segundo os modelos de gosto da arquitectura paisagística, romanticamente vocacionada para a encenação da espontaneidade.

Do ponto de vista artístico, Sintra revela testemunhos característicos de todos os momentos históricos que, cumulativamente e por estratificação, foram contribuindo para a sua riqueza e variedade. São marcos que assinalam a Pré-História, a colonização romana, as lutas da reconquista cristã da Península, o período instável da crise dinástica tardo-medieval, a gesta dos Descobrimentos e expansão ultramarina, a conturbada época que rodeia o gosto neo-clássico e as sucessivas vagas dos Romantismos, inclusive os do nosso tempo. É importante sublinhar que nesta profusão de sensibilidades, não há sinais de litígio ou incompatibilidade, embora elas representem momentos e impulsos de radical ruptura com a tradição. Pelo contrário, a respiração própria de Sintra determina a convivência harmoniosa de estilos, de modo que o seu património é um todo, compósito e orgânico, onde é possível detectar com excepcional clareza as marcas do processo histórico patente nos aditamentos e citações que são a memória viva de outros monumentos. Todas estas circunstâncias justificam metodologicamente uma leitura globalizante, intertextual e combinatória. Nesta óptica, Sintra exemplifica a própria imaginação poética romântica, capaz de, por função analítica, decompor o todo nas suas partes constituintes para, logo a seguir, por função sintética, reconstruir e unificar a pluralidade dos fragmentos. Por consequência, não admira que a dominante do espaço sintrense remeta para a estética revivalista, isto é, historicizante, que aproveita todas as possibilidades de utilizar em simultaneidade motivos, temas, imagens, simbologias, etc., características de estilos específicos e situados na sucessão dos tempos. E, para comparar dois exemplos, se no caso do Paço Real da Vila a construção áulica foi crescendo em várias campanhas de obras durante quase nove séculos, o que lhe confere autenticidade na diversidade, no caso do Palácio da pena estamos perante o projecto ideado por um rei e arquitecto oitocentistas que dão corpo a um grandioso pastiche, conjunto heteróclito de bizarra aparência que levado onírico e do maravilhoso, mas também do excesso, de indistinção e do nocturno. Tal como Sintra, o Palácio da Pena revela o modo como a partir da fragmentariedade de imagens contraditórias se torna possível construir, por dialéctica, uma unidade superior que as incorpora e supera. Projecto romântico por excelência, Sintra causa o deslumbramento das cenografias monumentais e apresenta um certo ar reticente e inconcluso a recordar as ruínas que, como motivos ornamentais, eram construídas nos jardins oitocentistas para evocar nostalgia.

De entre os vários tipos de representação estética que tematizam a paisagem sintrense, interessa aludir à iconografia artística representada por gravuras de finais do século XVIII e princípios do século XIX, da autoria de Schiopetta, Burnet, Brélaz, Wells e Nöel, ou seja, produtos do momento histórico em que por força do Romantismo, se consuma a internacionalização da paisagem sintrense enquanto pólo de atracção de escritores e artistas.

No que toca À literatura portuguesa, convirá observar que continuamente se manifestou o interesse por Sintra, imagem evocada com maior ou menor extensão mas sempre com notória intensidade no drama de Gil Vicente, na epopeia de luís de Camões, na lírica de Almeida Garrett, no romance de Camilo e Eça de Queirós. Não obstante, podemos dizer que a reputação transnacional de Sintra e o seu papel na projecção da imagem de Portugalpelo mundo são, sobretudo, o resultado directo do testemunho de forasteiros românticos, nomeadamente oriundos da Grã-Bretanha, país que intensificou as relações comerciais, diplomáticas e político-militares com Portugal durante a primeira metade do século XIX. De entre tais viajantes sobressaem William Beckford (1787), James Murphy (1795), Robert Southey (1800), Lord Byron (1812), Dora Quillinan (1846) e Lord Tennyson (1859), que na sua produção ensaística epistolar ou diarística enalteceram a paisagem sintrense, integrando-a no tecido do imaginário oitocentista e no roteiro obrigatório das peregrinações culturais. Naturalistas, diplomatas, militares, artistas, e tantos outros protagonistas da aventura romântica, por vezes simples diletantes em busca de sensações novas, foram sensíveis ao apelo e encanto da região que percorriam, consultando in loco as obras dos seus predecessores ou folheando os manuais e guias turísticos, ao tempo publicados sob a chancela de John Murray ou de Baedecker.

Impossibilitados de analisar em espaço reduzido cada um dos contributos de tais autores, limitar-nos-emos a dizer sinteticamente que, na leitura crítica desse vasto corpus, é possível distinguir três linhas de força.

Em primeiro lugar, a especificidade das circunstâncias históricas determinou que à cultura anglófona estivesse reservado lugar prioritário na génese e fixação da imagem de Sintra que, depois, irradiou pra a Europa romântica. Mercê da abundância e diversidade dos testemunhos publicados e também do prestígio e ressonância atingido pela voz de várias gerações de lusófilos, Sintra tornou-se gradualmente lugar emblemático do Romantismo que convida ao ócio criador, desencadeia as deambulações da fantasia, conduz à evocação reverente do passado, viabiliza a recuperação da inocência paradisíaca através do diálogo com toda a obra da criação, e desperta a consciência para o peso da herança histórica e para os imperativos de preservação e transmissão do património natural e cultural como estrutura orgânica viva. Para além disso, a paisagem mítica de Sintra convida também ao diálogo com os espíritos tutelares latentes nas coisas, propõe o movimento ascensional e regressivo das criaturas em direcção ao criador, e infunde o temor reverencial, inspirado pela grandiosidade dos elementos em fúria, ameaças potenciais à fragilidade da vida humana.

Em segundo lugar, Sintra é um daqueles locais onde, por mediação da literatura, a Naturezas e transforma poeticamente em paisagem. Por outras palavras, a operação verdadeiramente estética pela qual o observador concentra o olhar e selecciona o ponto de vista e o enquadramento da composição entre todos os elementos por mais díspares que pareçam, ou seja, projecta a sua capacidade ordenadora sobre os objectos, atribuindo-lhes sentido e tornando-os legíveis através da metaforização – é este fenómeno de subjectivação da natureza que se encontra no cerne da própria poética romântica. Como sabemos, a esta importam menos os cenários em si mesmo do que a vibração interior que eles provocam no sujeito observador que, ao conhecer, transforma e recria o mundo à dimensão das suas percepções e à imagem da sua própria consciência.

Em terceiro lugar, a paisagem de Sintra na sua representação literária absorve os traços característicos de duas categorias estéticas que o romantismo tornou sobremaneira produtivas e típicas – o pitoresco e o sublime.

Quanto ao pitoresco trata-se de um conceito ligado em especial às artes plásticas e aplicado desde finais do século XVIII, para denotar uma paisagem agradável à vista, que estimula a imaginação e parece singularmente adequada à pintura pelo seu aspecto espontâneo e inacabado. Neste sentido, podemos até sublinhar as curiosas analogias entre a iconografia e a literatura de temática sintrense, na medida em que o tratamento pictórico e cromático dos vários planos evidencia a importância atribuída aos elementos vegetais, às vastas superfícies da terra e do céu, aos limites esbatidos do horizonte, ao enquadramento dos monumentos e à representação das figuras humanas de diminutas proporções e geralmente situadas em primeiro plano, como que sugerindo a subalternização do homem perante as manifestações da natureza.

Quanto ao sublime, conceito estético contemporâneo do pitoresco mas, ao contrário deste, transferido da teoria literária para a história da arte, trata-se de uma designação onde estão combinadas as noções de extraordinário, atemorizante e intensamente emotivo que se aplicam para descrever certas paisagens onde predomina o belo terrível. Nas páginas dos autores oitocentistas e, de forma epigonal, nos trechos dos nossos contemporâneos, encontramos nas linhas ou entrelinhas, referências dispersas ou enumerações sistemáticas dos elementos e atitudes com a experiência do sublime que as serranias de Sintra e as escarpas a pique sobre o mar oferecem ao viajante.

Por tudo isto, e em conclusão, conservar e transmitir o património natural e monumental de Sintra às gerações vindouras, significa reconhecer e respeitar, nesta unidade indissolúvel da Vila e região, a densidade histórica que logra subtrair-se ao filistinismo plutocrata da civilização ocidental pós-romântica. Entre as grandes referências culturais aglutinadoras das sensibilidades estéticas, Sintra é um caso invulgar, pois, além do seu significado na tradição cultural portuguesa, a sua imagem transpõe fronteiras e constitui, nos dois últimos séculos, um espaço mitificado pela imaginação criadora e veiculado da cultura europeia para o património do mundo, por sucessivas gerações de poetas e artistas.

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