Monserrate e Pena

«Lo! Cintra’s glorious Eden!»
Byron

William Beckford, personalidade sulfúrea, imensamente fortunada, descobriu em 1794 o castelo «barbarous gothic» de Monserrate, que um dos seus conterrâneos de Lisboa, De Visme, monopolista abastado, mandara construir anos antes em Sintra, com janelas ogivais e ameias medievais.

Beckford hesitava então em instalar-se em Portugal, terra onde lhe prometiam uma ilustre aliança. Dotou o castelo de De Visme de melhoramentos e aí plantou um parque raro e frondoso. O pai de Vathek partiu todavia para Inglaterra com o fito de reconstruir a sua célebre “Fonthill Abbey”, e Monserrate, uma vez mais votado ao abandono, começou a desfazer-se em ruínas. Byron, que aí viveu em 1809 a ele se refere – como sendo uma «residência deslumbrante e solitária, criação amaldiçoada do homem» –  antes de a votar ao seu destino tenebroso.

A Sintra romântica do início do século XIX é fundamentalmente Byron, que aí escreve o primeiro canto do seu Child Harold, hóspede de uma dama, O’Daisy Cassidy, na sua pensão inglesa que mais tarde se transformará no Hotel Lawrence, em meados do século e até aos nossos dias. Com Byron e Beckford, Sintra tornou-se ponto alto do Portugal romântico – «o Brighton da nobreza portuguesa», como diria o Príncipe Lichnowski, em 1842, depois de aturados elogios de viajantes estrangeiros do fim do século: R. Crocker, H.J. Link, ou J.B.F. Carrére. Por volta de 1860, um poderoso industrial inglês adquiriu as ruínas de Monserrate e mandou erigir, pelas mãos de James Knowles, afamado arquitecto vitoriano, um castelo inteiramente novo inspirado no famoso pavilhão de Brighton de Nash, numa cenografia que se enquadra harmoniosamente no parque que tem vindo a crescer até aos nossos dias. Cook será Visconde de Monserrate e aí organizará grandes festas nos anos 1880. O silêncio que, desde então, envolveu este esplendoroso edifício – à imagem de uma bela adormecida – empresta-lhe mistério e exotismo.

É esta Sintra do sopé da Serra, onde, nos finais do séc. XVIII, outros castelos se ergueram, como Seteais que passou das mãos do seu construtor, o holandês Guildemester, intermediário no monopólio de diamantes do Brasil para as mãos do nobre Marquês de Marialva e, por herança, para o Marquês de Loulé (hoje, habilmente transformado em hotel de luxo); ou a Regaleira, situada próximo da Vila, sede da aristocracia dos meados do séc. XIX que um poderoso financeiro, conhecido pelo nome de “Monteiro dos Milhões”, mandou reconstruir, por volta de 1900, bem ao gosto revivalista português – dito estilo “neo-manuelino” - e que, graças ao projecto feérico de um cenógrafo italiano da Ópera de Lisboa, Manini, lhe empresta o seu último clarão burguês. Objecto de um restauro bem conseguido, a sua manutenção está hoje a cargo de uma empresa japonesa.

Mas a imagem mais conhecida de Sintra é-nos transmitida pelo Palácio da Pena, obra de um jovem príncipe alemão de Saxe Coburg-Gotha, feito príncipe consorte de Portugal em 1836, e que nela se empenhou com gente sua e aí mandou construir um domínio reservado, íntimo, primeiro com a Rainha, depois com uma cantora de ópera a que se juntou numa união morganática quando enviuvou – monarca feliz sem coroa (tendo recusado, posteriormente, a coroa de Espanha que lhe foi proposta), rei artista, amante da música, do “bel-canto”, da pintura e do “décor”.

Mas a maior paixão do Rei D. Fernando foi a arquitectura: deu nova vida à célebre janela, votada ao esquecimento, do Convento de Cristo, em Tomar, obra-prima do manuelino do séc. XVI; e das ruínas salvou também um pequeno convento ieronimita que o tremor de terra de 1755 destruíra, no cume da Serra que domina a Vila de Sintra, aí criando um palácio das mil e uma noites. Um engenheiro militar do Reno, o Barão de Eschwege, W. Cifka, ceramista alemão, e um jardineiro com a mesma origem, colaboraram neste espectacular empreendimento que preencheu toda a vida do rei: pedras sobre pedras, ala após ala, pátio sobre pátio, torre sobre torre… As cúpulas ainda hoje reluzem por entre o nevoeiro que vem do mar, ali ao pé, rompendo por entre a «paisagem mais bela do mundo». Nunca escassearam elogios acerca deste «Wartbourg dos portugueses» (Haupt), acerca deste «castelo do Santo Graal nos jardins de Klingsor» (R. Strauss)…

Obra germânica, é certo, situada historicamente e em pé de igualdade, entre os castelos do Reno de Frederico Guilherme IV da Prússia, com traça de Schinkel, e os do rei Luís II da Baviera, vizinho de Fernando de Cobourg, a Pena, que os reis de Portugal habitaram até 1910 e, posteriormente, um ditador megalómano e sisudo, em 1918, é símbolo heráldico e teatral do romantismo português. É neste quadro que a silhueta do castelo se perfila na célebre tela fundadora do romantismo nacional, paisagem onde os jovens pintores de 1850 se retrataram a eles próprios – isto é, no coração da Serra de Sintra…

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