Palácio Nacional de Sintra

«O Sintria amoenissimus locus Et hortus regius…»

Nicolao L. Valckenstein, 1451

O Palácio Nacional de Sintra constitui um monumento único em Portugal. Com efeito de todos os palácios que os reis portugueses edificaram e possuíram ao longo da Idade Média, apenas o de Sintra conseguiu chegar até aos nossos dias.

E se, como é natural, algumas modificações e alterações experimentou ao longo de todos esses séculos, a verdade é que o essencial da sua definição arquitectónica – depois das obras de ampliação e melhoramento levadas a cabo pelos reis D. João I (1357-1433) e D. Manuel (1469-1521), no início do século XV e nos princípios do século XVI, respectivamente – mantém o prospecto que desde essa altura passou a sua fisionomia fundamental e mais definidora.

As razões para a excepcional conservação deste palácio régio foram já avançadas, de forma exemplar, pelo rei D. Duarte (1392-1438):

                 «vimos a esta vila de Sintra muitas vezes ter alguns verões. E assim cremos que o farão os reis que depois de nós vieram, por acharmos a terra de muito bons ares e águas e de                             comarcas em que há grande abundância de mantimentos de mar e de terra, e por a nossa muito nobre e leal cidade de Lisboa estar tão próxima, e por termos em Sintra muita                             folgança e desenfadamento de montes e caças. E por termos nela nobres espaços de mui espaçadas vistas…».

Como que a dar razão à profecia do rei D. Duarte, o cronista principal do rei D. Manuel – Damião de Góis – enumera quase os mesmos motivos para a preferência que este último rei demonstrou em relação ao palácio, pois, o monarca ia a Sintra passar o Verão:

               «por ser um dos lugares da Europa mais fresco, e alegre, para qualquer rei, príncipe e senhor poder nele passar esse tempo, porque além dos bons ares que de si lança aquela serra,                chamada pelos antigos Promontório da Lua, há nela muita caça de veados e outros animais, e sobretudo muitas e boas frutas de todo o género das que em toda a Espanha se                              podem achar, e as melhores fontes de água e mais fria de toda a Estremadura, às quais coisas todas acrescenta sabor os magníficos paços que no mesmo lugar têm os reis, para seu                  aposento e dos que com eles vão».

A consistência e validade deste conjunto de razões fica demonstrada pela ocupação continuada que os reis portugueses fizeram deste palácio até à implantação da República, em 1910. Inclusivamente, a última rainha de Portugal – D. Maria Amélia de Orleans e Bragança (fal. 1951) – de tal forma era uma apaixonada deste edifício que lhe dedicou um conjunto apreciável de desenhos:

               «atraída pelo indizível encanto que este Paço exerce em quem o olha»,

convenceu o Conde de Sabugosa a escrever um guia para esses desenhos, nascendo assim O Paço de Cintra (Lisboa,1903), obra que continua a ser, ainda hoje, a monografia fundamental deste edifício.

Memória viva de muitos sucessos, o Palácio Nacional de Sintra foi palco de acontecimentos vários da História de Portugal, alguns dos quais se entrelaçam, pelas suas consequências, com a própria História da Europa e da sua abertura a outros mundos.

Em 1415, aí recebia o rei D. João I os embaixadores que enviara à corte da Sicília mas cujo objectivo secreto era o de estudarem as condições da cidade norte-africana de Ceuta, com vista à sua conquista militar. Efectuada nesse mesmo ano, esse acontecimento abriu as portas à Expansão Marítima e aos Descobrimentos portugueses.

No Palácio de Sintra nasceu, em 1432, o rei D. Afonso V. Filho de D. Duarte (ele próprio frequentador assíduo deste paço, sobre o qual deixou uma descrição notável), aí acabou também por falecer, em 1481. Cumpridos os dias oficiais de luto, seu filho, o rei D. João II, foi aclamado rei nesse mesmo paço de Sintra, em cerimónia pública de grande aparato efectuada no Jogo da Pela – um dos numerosos pátios que compõem o edifício.

Em 1492, este último monarca decide acolher em Portugal, mediante o pagamento de uma grande soma de dinheiro, os judeus expulsos de Espanha pelos Reis Católicos: o palco desta decisão, de grande alcance social pra a época, foi, uma vez mais, o Palácio de Sintra. E se não há certeza absoluta quanto ao factor de ter sido em alguma sala deste paço que o rei D. Manuel, sucessor de D. João II, recebeu a nova chegada à Índia da armada de vasco da gama, o mesmo não acontece em relação a outro acontecimento de grande relevância para a história da Humanidade: a 31 de Julho de 1501, estando em Sintra a passar o Verão, recebia D. Manuel a notícia da entrada, na barra do Tejo, da armada de Pedro Álvares Cabral e, com ela, a nova do descobrimento do Brasil.

Casamentos régios aqui foram combinados; embaixadores de países europeus ou asiáticos aqui foram recebidos; como cativeiro para um infeliz rei destronado (D. Afonso VI, fal. 1683) também serviu; finalmente, engalanou-se em 1885 para receber, em festivo banquete oferecido pelo rei D. Luís, os exploradores do continente africano Capelo e Ivens, que haviam ligado Moçâmedes, na costa ocidental de África (Angola), a Quelimane, na costa oriental (Moçambique).

É este profundo sentido histórico que faz com que a Sala dos Cisnes do Palácio Nacional de Sintra, actualmente erigido “Monumento Nacional”, seja utilizada nos dias de hoje, pelo Primeiro Ministro do Governo de Portugal, como local de recepção e de banquetes oficiais a chefes de governo estrangeiros em visita ao país.

No entanto, não é apenas o peso profundo de uma história longamente vivida e participada que faz do Palácio de Sintra um edifício único em Portugal. É também a sua própria materialidade, isto é, o seu valor arquitectónico e artístico, que faz dele um edifício ímpar.

As suas raízes assentam na época do domínio árabe na Península Ibérica. Em Sintra, com efeito, possuíam os mouros duas fortalezas: um castelo no cimo da Serra (ainda hoje marcando de forma inconfundível a paisagem sintrense) e um outro na Vila. Foi este último, com os respectivos paços do alcácer, que os reis de Portugal ocuparam depois de os seus possuidores o terem abandonado na sequência da conquista de Lisboa aos mouros, pelo rei D. Afonso Henriques, em 1147. Os monarcas subsequentes, porém, não puderam de imediato prestar atenção às magníficas condições naturais que Sintra oferecia, devido à luta constante de alargamento do território nacional. O primeiro rei a interessar-se activamente pelo paço sintrense foi D. Dinis (1261-1325), numa altura em que, concluídas as lutas de reconquista do território aos mouros, havia necessidade de estruturar o Estado e reorganizar o país.

É, por consequência, D. Dinis o primeiro rei a quem se podem atribuir com segurança obras de alargamento e beneficiação do primitivo alcácer mouro. Destaca-se, neste caso, a construção da capela palatina, integrada, aliás num conjunto de capelas congéneres que se sabe ter este rei mandado fazer em outros palácios régios. Construída num gótico de grande simplicidade, apresenta uma nave com um transepto pouco saliente e uma capela-mor desenvolvida, provavelmente de planta também rectangular.

As primeiras grandes transformações do paço de Sintra devem-se, no entanto, a D. João I, nos inícios do século XV. Acompanhando igual circunstância que se processava, na mesma época, por toda a Europa, com os reis e a nobreza em geral a prestar o maior cuidado à construção de palácios mais ricos e faustosos ou transformando as fortalezas militares em habitações confortáveis e de aparato, a acção construtiva de D. João I fez-se sentir, de uma forma definitiva, no Palácio de Sintra. Na verdade, este rei dotou-o de um conjunto de dependências que, no essencial, definem um outro paço autónomo e completo, que se soma às outras dependências já existentes.

Em volta de um pátio central, que funciona como espaço ordenador da nova construção, ergueu-se todo um conjunto de câmaras enunciadoras de um edifício deste tipo: partindo do Sul, a grande sala, hoje denominada de Sala dos Cisnes, espaço amplo destinado a grandes recepções, banquetes, festas, etc.; continuando pelo lado do Ocidente, um conjunto de câmaras – das Pegas, de D. sebastião, da sereia, de césar – com funções diversas mas de uso sempre mais restrito e reservado a pessoas íntimas dos monarcas e que funcionam como antecâmaras do quarto de dormir – a Sala dos Árabes – e da transcâmara – o Quarto dos Hóspedes (estas duas últimas a Norte); fechando este conjunto e ocupando o lado de Nascente do referido pátio central, construi-se a grandiosa cozinha, cujas monumentais chaminés cónicas revelam não só maior conforto e aparato das habitações régias desta época, como também pela sua excepcionalidade se tornam ex libris do palácio e da própria vila de Sintra. Dotou-se, ainda, a capela com novos tectos de madeira em trabalho feito ao gosto mudéjar, com as laçarias e desenhos geométricos, de grande efeito decorativo, a perpetuarem a antiga memória dos primeiros ocupantes do palácio – os mouros.

Nos princípios do século XV ganhava, pois, o Palácio Nacional de Sintra uma projecção e envergadura arquitectónicas que só tinham correspondência na predilecção e usufruto que os diversos reis, ao longo dessa centúria, sempre lhe dispensaram. E a coroar todo esse empenho e gosto particulares, o palácio conheceu, no final do século, e nos princípios do século XVI, uma outra ampliação e renovação geral de grande alcance e significado que, como já se afirmou, fixaram em definitivo a imagem fundamental deste importante edifício.

O rei D. Manuel I, enriquecido com o comércio das especiarias asiáticas e com outros proventos possibilitados pelo grande império português entretanto ampliado, dedicou especial atenção à sua morada de Sintra.

Em primeiro lugar, realizou grandes obras de beneficiação e embelezamento dos paços já existentes: reformou quase todos os vãos – janelas e portas -, dotando-os de um aparato e decorativismo próprios do esplendor artístico do tardo-gótico; embelezou os interiores das câmaras, revestindo as paredes de composições azulejares de grande sentido decorativo que aproveitam ao máximo as capacidades ilusionistas e de vibração luminosa que este material, de grande tradição muçulmana, permite; reorganizou as ligações entre os diversos edifícios já existentes, através de pátios variados que são responsáveis, juntamente com a aparente desorganização de todo o conjunto, pela variedade de perspectivas e de recantos intimistas que dão carácter ao Paço de Sintra. A coroar esta profunda remodelação, redistribui-se e aprofundou-se a importância da água: em fontes, tanques e esguichos, quer nos pátios exterior quer no interior da Sala dos Árabes, o reflexo dos edifícios na sua superfície lisa, duplicando-lhes a imagem, o seu sentido último de Vida e Regeneração, conferem à água um papel de grande destaque na compreensão e vivência do palácio. É, sem dúvida, um dos elementos que mais e melhor acentua a autêntica moda de que o mudejarismo – a continuidade das tradições artísticas e das sensibilidades muçulmanas na Península Ibérica ao longo de toda a Idade Média – gozou em Portugal, particularmente Para nos momentos finais desta época.

Para coroar a intervenção profunda que D. Manuel I realizou no Palácio Nacional de Sintra, levantou ainda este monarca um outro conjunto de dependências que definem, afinal, um novo paço completo e autónomo. É a chamada ala manuelina, composta por um edifício de planta em L e erguido em cinco pisos, construído no alinhamento da fachada exterior da Sala dos Cisnes, de modo a duplicar e engradecer a fachada exterior mais importante de todo o palácio. Em contraste com a decoração de pendor mais sóbrio do edifício já existente, os elementos decorativos das janelas das salas principais desta nova ala mostram a pujança naturalista própria da designada arte manuelina, com formas vegetalistas de grande relevo e acentuados contrastes de claro-escuro, responsáveis pelo tom de dramatismo identificador deste Outono da Idade Média.

No ponto mais alto de toda a colina em que o paço se ergue, construiu ainda D. Manuel I uma nova dependência de grande significado: uma torre quadrangular, coroada por uma alta pirâmide – a Sala dos Brasões – em cuja abóboda interior se perfilam, rodeando os escudos de toda a família real, os brasões das 72 famílias mais nobres do Reino. Num tempo de centralização política e de absolutismo do Estado, esta Sala, orientada de modo preciso segundo os pontos cardeais, resume de forma verdadeiramente impressionante o início da Idade Moderna: o rei, no centro da abóboda, é verdadeiro sol cuja luz irradia (iluminando mas também submetendo) para toda a constelação, que à sua volta gravita, da leal e fiel nobreza de todo o reino.

Ao longo dos séculos seguintes, pouco há a registar de verdadeiramente significativo na alteração da imagem fundamental do Palácio Nacional de Sintra. O próprio terramoto de 1 de Novembro de 1755 (responsável pela destruição de grande parte da cidade de Lisboa), se atingiu também Sintra e o seu Palácio (tendo feito desaparecer sobretudo a torre militar que se erguia sobre a Sala doa Árabes), não danificou o essencial deste edifício, até porque os reconstrutores do século XVIII, numa atitude extraordinária de antecipação aos valores patrimoniais dos nossos dias, tiveram a preocupação de respeitar ao máximo o pré-existente, reaproveitando materiais e sobretudo mantendo o mais possível a linguagem original.

Começa, igualmente, na segunda metade do século XVIII, a valorização ideológica e estética do Palácio de Sintra. O Romantismo era-lhe favorável: o esplendor da natureza que o rodeia, as brumas que com frequência cobrem o cimo da Serra e descem por vezes à Vila, o aparente emaranhado das suas construções, serviam à perfeição a mentalidade romântica. No glorioso Éden, como Lord Byron caracterizou Sintra, o Palácio Nacional exercia um fascínio muito próprio que a sua memória mudéjar, redescoberta no século XIX, mais ampliava. O aparente exotismo das suas construções, a presença dos revestimentos azulejares e dos tectos de alfarge da capela, os percursos inesperados de água nos seus interiores, serviam de pretexto para, através de um leque de lendas variadas e de nomes de sabor árabe com que entretanto se baptizaram alguns dos seus espaços, cobrir com um manto diáfano do arabismo o Palácio de Sintra. Se nem todas as lendas resistem ao escalpelo da análise histórica, a sua existência nem por isso deixa de ser um contributo de grande significado a valorizar ainda mais este edifício.

Na verdade o Palácio Nacional de Sintra, para além da importância real da sua dimensão histórica e artística, de excepcional valor no contexto português e europeu, goza hoje também de uma mais valia no imaginário colectivo, pela teia lendária de episódios e de ascendências mouriscas com que se decorou. Nenhum outro edifício em Portugal se rodeou, talvez, como ele, de um manto diáfano em que a lenda e a poesia se abraçam para lhe cobrir, com uma aura de mistério, as suas vetustas paredes e o labirinto dos seus pátios e passagens.

Dir-se-ia que a névoa que frequentemente encobre o cimo da montanha de Sintra desce, por vezes, até à Vila, tornando fugaz a realidade concreta das salas do Paço, fazendo flutuar as chaminés imensas da sua cozinha e acordando, para nova vigia atenta, o volume denso e altaneiro da Sala dos Brasões.

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