Sintra, Medieval, Moura e Cristã

Sintra, a verdadeira Finisterra, ficava no cabo do mundo europeu e medieval. E foi cristã, moura e novamente cristã. No seu território, sob o império do Islão ou sob a vigilância da Cruz, coexistiram as três religiões do Livro, cristianismo, islamismo, judaísmo.

A história da Sintra muçulmana liga-se estreitamente à história de lisboa em cujo termo se inseria, como escreveu no século X o geógrafo Ahmede Arrazi. Com Lisboa afrontou os normandos que, por três vezes, em 844, 859 e 966, devastaram a costa e os campos próximos. Com Lisboa partilhou os avanços e recuos da chamada Reconquista. Em 1093 caiu em poder de Afonso Vi, rei de Leão e Castela. Rapidamente perdida, retoma-a em 1109 o conde portucalense D. Henrique. Em 1111 é de novo muçulmana. E só quando em 1147 o primeiro monarca português D. Afonso Henriques, com a ajuda de uma poderosa armada de cruzados, conquistar Lisboa, Sintra se integrará no colar das vilas do Portugal cristão.

Da presença multissecular dos muçulmanos (713-1147) ficaram Sintra marcas na toponímia, na historiografia, na poesia e no património.

A Ibn Abde Al Munime Al Himiari, geógrafo do século XIII, mas que se baseou em Al Bacr (XI) e Edrici (XII), devemos uma descrição colorida de Sintra muçulmana:

«Uma das vilas que dependem de Lisboa no andaluz, nas proximidades do mar. Está permanentemente mergulhada numa bruma que não se dissipa. O seu clima é são e os habitantes vivem longo tempo. Tem dois castelos que são de extrema solidez. A vila está a cerca de uma milha do mar. Há aí um curso de água que se lança no mar e serve para a rega das hortas.

O agro de Sintra é uma das regiões onde as maçãs são mais abundantes. Esses frutos atingem uma tal espessura que chegam a alcançar quatro palmos de circunferência. Acontece o mesmo com a Pêras. Na serra de Sintra crescem violetas selvagens. Da costa vizinha extrai-se âmbar excelente».

Tal vez as maçãs e as pêras, de que fala Al Himiari, não atingissem os quatro palmos de circunferência, mas as gerações seguintes continuarão a enaltecer as frutas de Sintra, consumidas por Lisboa e pelas naus europeias e do mundo que aportaram ao Tejo.

Al Himiari fala em dois castelos mouros. Um continua de pé no alto da serra. Do eirado das torres e ameias, marcadas pelo tempo e as sucessivas gerações, os olhos pairam abeberados de luz sobre avila, os campos e o mar.

Do outro castelo, muito do seu espaço persistiu no Palácio Real ou Palácio da Vila. O palácio encanta pela beleza e o mistério dos eirados, das casas-pátio, rasgadas por portas ogivais e janelas geminadas de pedra rendilhada e pela cor dos tapetes e molduras de azulejos. Naquele espaço vive a memória de reis, de rainhas de um rei prisioneiro e infeliz e de outras histórias da História de Portugal.

Nas faldas da serra de Sintra, em Alcabideche, nasceu e viveu os últimos anos o poeta muçulmano do século XI, Abu Zaíde Ibne Mucana Al Usbuna Al Cabdaque, que à sua terra natal dedicou um poema célebre no qual enaltece os moinhos de vento:

                                                                «Ó tu que habitas Alcabideche! Oxalá nunca te faltem

                                                                 Cereais para semear nem cebolas nem abóboras!

                                                                 Se és homem decidido precisas de um moinho

                                                                 Que trabalhe com as nuvens sem dependeres dos regatos!»

Também a toponímia guarda memória da passagem de mouros e moçárabes (cristãos que viviam sob o domínio árabe): Albarraque, Assafora, Azoia, Alcoitão, Manique, Almoçageme, Mucifal, Almargem do Bispo, Alcolumbal. O próprio “saloio” (em árabe, homem do campo) designa os agricultores do termo de Lisboa, incluídos os habitantes dos campos de Sintra.

D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, retomou Sintra em 1147 após a conquista de Lisboa e consagrou os direitos e deveres dos seus moradores a carta de foral de 1154.

D. Dinis o rei trovador, doou «a minha vila de Sintra (…) a vós. Rainha Isabel minha mulher», a aragonesa e portuguesa rainha santa Isabel que por milagre converteu o pão em rosas.

Este rei trovador, cognominado O Lavrador, de quem o povo dizia «D. Dinis fez tudo quanto quis», arrendou aos «meus mouros forros de Colares» (Sintra) os pomares de maçãs, pêras e outros frutos, tão elogiados pelo geógrafo al Himiari. Os mouros pagariam um quarto de quanto produzissem e deveriam guardar, plantar, enxertar, regar, vedar, trabalhar e conservar os referidos pomares. E como se queixassem de que o monarca os sujeitava ao pagamento de metade de quanto produziam nos herdamentos próprios, D. Dinis reduziu-lhes o encargo. Das suas herdades pagariam agora o quarto do pão, do vinho, do linho, dos legumes e de todos os outros frutos mas na condição de que renovassem, reparassem e reconstruíssem os Paços da Vila e as casas das «almedinas velhas do meu castelo de Sintra».

Ibn Mucana Al Usbuna Al Cabdaque queixava-se no século XI dos javalis que desciam da serra a devorar as colheitas. Pelo seu lado, os homens bons de Sintra, Miguel Roiz, Pero Darmez e o tabelião Gil Martins, agravavam-se em 1333 ao rei D. Afonso IV. Pelo foral outorgado por D. Afonso Henriques, os sintrenses poderiam caçar os cervos e os javalis, pagando meio lombo de cervo e uma costa de porco. E agora o rei mandava-os multar e pretendia reservar para si o prazer de aí «correr o monte». Mas na serra não viviam apenas animais selvagens. Os moradores lançavam-lhe o seu gado sem pastor e os homens do rei levavam-no como gado perdido. Os sintrenses estavam isentos de portagem, açougagem e colheita mas o rei impunha o seu pagamento e ainda o quarto do que laboravam as azenhas e os fornos. Só moradores poderiam ser clérigos das suas igrejas mas o rei não guardava o privilégio. Violando o foral, o alcaide de Sintra prendia sem apresentar imediatamente os detidos ao juízo dos alvazis ou juízes da vila.

Os produtos que entravam no imposto da colheita, pago todos os anos no dia primeiro de Maio, sugerem que as frutas de Sintra se destinavam em boa parte ao mercado. Os produtos retratam também a Sintra medieval.

No dia primeiro de Maio a rainha recebia 1200 pães (3 pães de alqueire), 24 pães de cozinha, 4 moios de vinho, 12 moios de cevada, 120 galinhas, 400 ovos, 2 quarteiros de milho, 2 vacas, 4 porcos, 10 carneiros e 2 do alfeire, 24 cabritos, 2 libras de cera, 2 alqueires de mel, 2 de manteiga, 2 de vinagre, 2 alqueires de sal, 2 molhos de linho, 2 escudelas de fruta, 2 libras de pimenta, 2 alqueires de farinha, 2 cargas de lenha, 2 réstias de alhos e 2 de cebolas.

O rei D. João I de Boa Memória (1383-1433) amou particularmente o Paço da vila. Pelas Medições das Casas de Sintra sabemos em que quadras comeu, dormiu, rezou, etc.. O seu escudo persiste no tecto em alfarge da capela. A sala grande conserva ainda o nome de Sala dos infantes.

Seu filho D. Duarte (1433-1438), o rei filósofo, a quem devemos as Medições da Casa de Sintra, manteve a mesma predilecção pelo Paço da Vila. Aí nasceu e morreu seu filho e herdeiro D. Afonso V, o Africano. Em Sintra será aclamado o neto, D. João II (1481-1495), Príncipe Perfeito, o rei que baptizou o Cabo da Boa Esperança e abriu o caminho para o estabelecimento multissecular dos portugueses no Oceano Índico e Pacífico.

Quando os marinheiros de Vasco da Gama zarparam do tejo a caminho da Índia,

                                                               «Já a vista pouco e pouco se desterra

                                                                Daqueles pátrios montes que ficavam,

                                                                Ficava o caro Tejo e a fresca serra

                                                                De Sintra, e nela os olhos se alongavam».

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